Crítica | #ALIVE, o primeiro grande lançamento durante a pandemia chegou ao Netflix

O mestre dos filmes de zumbis George A. Romero utilizou suas obras nos anos 1960 e 1970 para fazer comentários sociais: mirava a Guerra Fria, a luta pelos direitos civis e o medo do desconhecido. Transformou o cinema à sua maneira e influenciou tudo o que seria feito no gênero desde então.

De lá para cá os zumbis ganharam as histórias em quadrinhos, os games, viraram séries de sucesso e passaram a se movimentar muito mais rapidamente. Extermínio (2002), de Danny Boyle, e Madrugada dos Mortos (2004, refilmagem do clássico de Romero lançado em 1978), de Zack Snyder (300, Watchmen, O Homem de Aço), foram alguns dos primeiros a mostrar as criaturas assustadores como verdadeiros velocistas. A lista segue e é extensa: franquia Resident Evil, Guerra Mundial Z (2013, com Brad Pitt), a comédia mórbida Fido, o Mascote (2006, no qual os zumbis foram domesticados e fazem tarefas domésticas|), os seriados Santa Clarita Diet (2017, no Netflix, com Drew Barrymore), e a famosíssima The Walking Dead, baseada em gibi de sucesso e que remete aos zumbis vagarosos de décadas atrás.

Ah-In Yoo in #Saraitda (2020)

Há zumbis para todos os gostos. E um cinema prolífico tal qual o sul-coreano não ficaria de fora. Em 2016, Invasão Zumbi (Train to Busam, de Yeon Sang-ho) arrebatou público e crítica. Com uma indústria consolidada, estimulada pelo governo, com cotas de tela para produções nacionais, o cinema ensinado nas escolas, a Coreia do Sul tornou um dos principais polos cinematográficos do mundo. A coroação veio este ano com a vitória de Parasita, do mestre Bong Joon-ho, no Oscar: inclusive a principal estatueta, de Melhor Filme. Muita gente vibrou. Inclusive aqueles que detonam o cinema brasileiro e reclamam das leis de incentivo. Só que lá, na Coreia do Sul, só foi possível chegar ao atual patamar de produção, com a maioria dos cinemas sul-coreanos ocupando as salas de cinema, justamente pelo apoio do poder público. O retorno está aí: dezenas de filmes comprados por serviços de streaming, premiação no Oscar, e o mundo inteiro falando do país asiático. Papo para outro texto, em outro momento, mas fica o recado.

Aí chegamos em #Alive, disponibilizado no Netflix em 8 de setembro. Trata-se do primeiro filme escrito e dirigido por Il Cho (co-produtor de Assassino Profissional): virou o primeiro blockbuster após o começo da pandemia do coronavírus. Acompanha a história de dois jovens isolados em seus respectivos apartamentos após um vírus tomar a cidade, o país, e transformar as pessoas em zumbis. Poderia até ser uma história no mesmo universo de Invasão Zumbi. Atraiu mais de 200 mil espectadores no dia de estreia e seguiu lotando as salas de projeção. Logo superou 1 milhão de espectadores. Não foi só o maior lançamento daquela nação em 2020, mas também a primeira grande estreia na época do “novo normal”, em meados de junho.

O êxito deve-se, ainda, às presenças de dois jovens astros muito populares no país: Yoo Ah-In (Em Chamas) e Park Shin-Hye (da série Memórias de Alhambra). Il Cho entendeu a evolução da forma como os zumbis tem sido interpretados nas telonas: agora, não há só o medo do desconhecido, mas essas tramas servem para retratar os relacionamentos entre seres humanos em momentos de pressão, de dificuldade. Há os altruístas, capazes de se dedicar ao próximo e até de se sacrificarem em prol de um bem maior, e há os egoístas. Vimos situações assim em Invasão Zumbi. Temos presenciado isso aos montes na vida real após o surgimento da covid-19: gente que tem feito das tripas coração para ficar em casa, enquanto outros não estão nem aí. E aqueles que, dependentes do trabalho para colocar alimento em casa, precisam se arriscar em transportes públicos, etc.

É o cinema, sempre, servindo de espelho para o mundo. Há alguns clichês no filme, é verdade: por exemplo o início, quando o protagonista acorda e o caos já se instalou. #Alive diverte, tem boas cenas de ação, sequências e instantes que lembram Eu Sou a Lenda (2007), e até a passagem do tempo de 30 Dias de Noite (2007, sobre vampiros), e um tom humanista característico do cinema sul-coreano, uma sociedade que investiu em cultura e hoje produz files aos montes, muitos bons, outros nem tanto. Fica a esperança de que no Brasil alcancemos esse padrão algum dia. Talentos nós temos e estávamos no caminho certo até o atual (des)governo perpetrar o desmonte da cultura.

Ah-In Yoo in #Saraitda (2020)

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