Pioneiro dos direitos civis, John Lewis passa pela última vez por Selma

John Lewis, pioneiro dos direitos civis, passou uma última vez pela ponte Edmund Pettus, em Selma neste domingo (26). Seu cortejo relembrou o momento de luta pelos direitos civis em que Lewis atravessou este marco ao lado de Martin Luther King.

As marchas pelos direitos civis foram retratadas no ótimo filme Selma: A Luta Pela Igualdade (2014), da diretora Ava DuVernay e no qual John Lewis é interpretado por Stephan James. A cineasta é também responsável pelo documentário 13ª Emenda (2016), sobre as injustiças do sistema prisional dos Estados Unidos, e a minissérie Olhos que Condenam (2019), drama que retrata como cinco garotos foram julgados, condenados e presos sem provas, num escancarado processo judicial racista. Estas duas últimas obras produzidas pelo Netflix.

Selma March: The Power of Empathy, Storytelling - Shaping Youth
Stephan James em Selma e John Lewis.

Lewis nasceu em Troy, no Alabama, em 1940. Era o quarto de dez irmãos de família de camponeses e cresceu em uma comunidade totalmente negra, onde rapidamente sentiu a segregação pela cor da pele.

Tinha apenas 21 anos quando se tornou um dos fundadores dos “Passageiros da Liberdade”, que lutaram contra a segregação racial no sistema de transporte público americano no início dos anos 1960.

Lewis foi o líder mais jovem da manifestação de 1963 em Washington, na qual Luther King proferiu seu histórico discurso I have a dream (Eu tenho um sonho).

Dois anos depois, quase morreu em uma manifestação antirracista pacífica em Selma, Alabama, quando teve um crânio fraturado pela polícia.

Aquele dia ficou conhecido como Domingo Sangrento e, exatamente meio século depois, caminhou de mãos dadas com Barack Obama, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, até o local do protesto emblemático.

Lewis entrou no Congresso em 1986 e logo se tornou uma das vozes mais poderosas da defesa da justiça e da igualdade.

Homenagens

No início da tarde, o caixão do congressista deixou a Capela Brown onde foi velado. Ele será enterrado no Capitólio, governo do estado do Alabama. Lewis faleceu semana passada, aos 80 anos.

O condado rural no Alabama onde nasceu foi o cenário neste sábado (25) do primeiro dia de homenagens ao congressista pelo estado da Georgia e importante nome da luta contra o preconceito.

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O culto matutino aconteceu na cidade de Troy, condado rural de Pike, na Universidade do município. Lewis costumava lembrar que lhe fora negada a admissão na universidade em 1957 por ser negro. Lá, décadas depois ele recebeu um doutorado honorário. A cerimônia levou o título The Boy from Troy, apelido que o Reverendo Martin Luther King Jr. deu a Lewis na sua primeira reunião em 1958 em Montgomery. King enviou a Lewis, de 18 anos, uma passagem de ônibus de ida e volta porque Lewis estava interessado em tentar frequentar a universidade – então apenas com alunos brancos – em Troy, a apenas 16 quilômetros da fazenda de sua família no condado de Pike.

Durante a homenagem na Universidade de Troy, seus irmãos e irmãs recordaram Lewis – chamado Robert em casa – como um garoto que praticava pregando e cantando músicas gospel para os animais da fazenda. E como um jovem que partiu com uma visão para mudar o mundo.

O sobrinho-neto de Lewis, Jaxon Lewis Brewster, de apenas sete anos, falou brevemente e disse: “O congressista Lewis era meu tio e meu herói, e cabe a nós manter seu legado vivo”.

Vidas Negras Importam

A última aparição pública de Lewis foi no início de junho, quando participou de um ato perto da Casa Branca, em Washington, em meio aos protestos antirracistas motivados pela morte de George Floyd, um homem negro sufocado por um policial branco em Minneapolis.

Já debilitado por um câncer de pâncreas e usando uma bengala, ele caminhou com a prefeita Muriel Bowser, em Washington, DC, em uma rua da Casa Branca que Bowser havia acabado de renomear Black Lives Matter Plaza, e que tinha sido decorada com um grande mural amarelo onde foi escrito “Black Lives Matter” (Vidas negras importam).

Não, não foi a última vez de Lewis em Selma. Seu legado é eterno.

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