LIGA DA JUSTIÇA (Justice League, 2017) não foi a versão esperada da reunião dos maiores heróis da DC Comics

Criada em 1960, a Liga da Justiça não foi o primeiro supergrupo de heróis, mas logo se tornou o mais conhecido. Desde então ganhou versões televisivas em desenhos animados que marcaram gerações: Super Amigos nos anos 70 e 80 e a série dos anos 2000. Há até um episódio piloto do malfadado seriado live action. E o divertido crossover entre os programadas do canal CW (na época eram Arrow, Flash, Supergirl, Legends of Tomorrow). Sem contar os excelentes filmes em animação lançados diretos em home vídeo.

Os fãs, no entanto, aguardavam ansiosos a adaptação definitiva para as telonas. Ainda mais com o concorrente Marvel Studios expandindo cada vez mais seu universo cinematográfico compartilhado.

Jason Momoa, Gal Gadot, Ezra Miller, and Ray Fisher in Justice League (2017)

A hora chegou no fim de 2017. Após a produção conturbada repleta de refilmagens, desconfiança de fãs, dos próprios executivos da Warner, a saída do diretor Zack Snyder na pós-produção em virtude de perda familiar, deixando o cargo nas mãos de Joss Whedon (dos dois primeiros Vingadores), as Lendas, assim conhecidas pelos fãs de quadrinhos e da editora DC Comics, enfim chegaram aos cinemas.

Se o tom soturno estava presente em O Homem de Aço (2013) Batman V. Superman: A Origem da Justiça (2016), Liga da Justiça dá uma piscadinha de lado para o público, a crítica, os próprios profissionais da indústria e diz integrar o mesmo universo dos filmes anteriores, porém vai em outra direção.

Ben Affleck in Justice League (2017)

Dizem que é para corrigir a visão de Zack Snyder. Que não teria alcançado o sucesso de público e crítica esperado nos trabalhos anteriores. Mulher-Maravilha, de Patty Jenkins lançado no início do mesmo ano, indiciou outro caminho, de luz, de otimismo. Os executivos do estúdio, vendo a concorrência arrecadar bilhões, e sem entender necas dos personagens dos quais são proprietários, radicalizaram. Liga da Justiça tem humor do início ao fim, emana luz, o Superman (isso não é spoiler) volta a usar um uniforme mais claro, condizente com o kryptoniano a quem conhecemos e admiramos, e até a trilha sonora traz trechos das soundtracks clássicas de Superman, o Filme (1978, criada pelo mestre John Williams), Batman (1989), quando Danny Elfman também assinou a obra, e inclusive da série animada Liga da Justiça Sem Limites.

Percebemos onde estão os estilos de Zack Snyder e Joss Whedon e, em vários momentos, o filme soa meio Frankenstein. Não tanto quanto Esquadrão Suicida, de 2016, o pior filme do DC Universe.

Connie Nielsen in Justice League (2017)
Connie Nielsen.

No saldo geral, no entanto, a nostalgia, a vontade de ver o Homem de Aço, o Cavaleiro das Trevas, a Amazona, o Rei de Atlântida, o Homem Mais Rápido do Mundo reunidos (há o Ciborgue também), fala mais alto.

A trama é clichê: uma invasão alienígena reúne os super-heróis. São recrutados por Batman (Ben Affleck, um tanto desconfortável no papel e exalando ironia) e Mulher-Maravilha (Gal Gadot, sempre carismática). O vilão, Lobo da Estepe, é de quinta categoria. Nem nos gibis foi ou é um dos principais rivais da Liga. Não importa. A química entre o time de defensores, as referências e a leveza garantem a diversão. O colega crítico Luiz Carlos Merten, do Estadão, cravou sabiamente: O Homem de Aço era sobre a figura do pai, Batman V. Superman sobre a mãe. E Liga é sobre a família. Uma família que ainda precisa amadurecer. E queremos ver essa evolução. Há duas cenas pós-créditos para delírio dos mais aficionados. E só os verdadeiros fãs perceberão uma menção ao Batman de 1966.

Rolling Stone · Snyder Cut: todos os personagens que foram ...
Divulgação do Snyder Cut.

Entretanto, a curta duração (duas horas, menos que os filmes solo lançados antes), o vazamento dos problemas de bastidores e a descaracterização do Batman (antes um sujeito atormentado, e agora proferindo piada seguida piada) desanimou o público. Não chegou nem a US$ 700 milhões em bilheteria, um fracasso retumbante se considerarmos as bilheterias dos demais filmes da DC e, principalmente, os da concorrente Marvel.

Zack Snyder passou a divulgar imagens de bastidores daquela que seria sua visão original para a equipe nos cinemas. Os fãs pressionaram. A Warner lançou outros longas de sucesso com os personagens dos quadrinhos, a direção do estúdio mudou e, finalmente, foi anunciado o Zack Snyder’s Justice League, ou simplesmente Snyder Cut, previsto para 2021 no HBO Max.

Gal Gadot and Ray Fisher in Justice League (2017)

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