A história do HOMEM-ARANHA no cinema

Por ANDRÉ AZENHA

Dos mais populares heróis das histórias em quadrinhos, Homem-Aranha foi criado por Stan Lee e Steve Ditko em 1962 e não tardou a virar desenho animado. Logicamente chegaria às telonas, mas o caminho foi um tanto demorado. A seguir, a história dos filmes estrelados pelo personagem. Há, inclusive, uma versão dos anos 1970 que chegou ao Brasil pelas telonas.

Nicholas Hammond

Nicholas Hammond.

O norte-americano surgiu para o mundo vivendo Friedrich, um dos sete filhos do Capitão Von-Trapp de A Noviça Rebelde (1965). E interpretou Peter Parker/Homem-Aranha em 13 episódios divididos em duas temporadas da série televisiva produzida pela rede CBS entre setembro de 1977 e julho de 1979. Cada história tinha uma hora de duração e os programas eram exibidos em dias e horários diferentes, como especiais.

Numa tática digna de Silvio Santos, os produtores decidiram juntar algumas tramas e transformá-las em longas-metragens, lançando-os nos cinemas de outros países, inclusive o Brasil. Foram eles: Homem-Aranha – O Filme (piloto do seriado, disponível no YouTube), O Retorno do Homem-Aranha (o episódio duplo Areia Mortal) e O Desafio do Dragão (o episódio duplo, A Teia Chinesa). Este último pegava carona na febre dos filmes de artes-marciais desencadeada pelo sucesso de Bruce Lee.

Nicholas Hammond in Spider-Man (1977)
Nicholas Hammond serviu de inspiração para a animação dos anos 1990.

A semelhança com os quadrinhos é mínima: o jornal Clarim Diário, o editor J.J. Jameson… Não há grandes vilões, as lutas são mal coreografadas e os efeitos visuais são precários – vítimas do baixo orçamento. A teia do herói lembra uma rede de pesca.

Apesar disso, muitos fãs guardam com carinho essa versão e os traços de Hammond serviriam de inspiração para a série animada do personagem nos anos 90, sucesso de público e crítica.

Existe no Brasil uma edição em DVD reunindo três episódios chamada O Homem-Aranha, da Coleção Super-Heróis do Cinema, que lançou por aqui ainda o Capitão América e o Superman dos anos 40, o Hulk dos anos 70, e outros.

Obs: Mais ou menos neste mesmo período foi produzido um seriado do Homem-Aranha no Japão, descaracterizando o personagem e mais próximo dos heróis nipônicos.

Tobey Maguire – a trilogia de Sam Raimi entre 2002 e 2007

Kirsten Dunst in Spider-Man (2002)
Tobey Maguire e Kirsten Dunst em Homem-Aranha.

Até seu retorno às telonas, Homem-Aranha se viu envolto em brigas judiciais entre estúdios e adaptações que quase saíram dos papéis por nomes como a Cannon, produtora de filmes B que fez o quarto Superman com Christopher Reeve e longas de Chuck Norris e outras “preciosidades” dos anos 80. Até James Cameron tentou levar o Teioso para as telonas. Ainda bem que nenhuma tentativa vingou, pois os roteiros eram embaraçosos.

Até que, em 2002, a Sony iniciou uma trilogia de sucesso. Dois anos antes, X-Men: O Filme retomou com dignidade os super-heróis nos cinemas traçando um padrão de qualidade que nortearia diversos estúdios dali em adiante.

Sam Raimi, dos cults Uma Noite Alucinante: A Morte do Demônio (1981) e Darkman: Vingança Sem Rosto (1990) dirigiu a nova empreitada com êxito, mesclando ação, drama, fidelidade aos quadrinhos e um bom elenco de jovens: Tobey Maguire, Kirsten Dunst (Mary Jane), James Franco (Harry Osborn). O herói foi colocado frente a frente ao seu principal algoz, o Duende-Verde (o sempre competente Willem Dafoe). Tudo escudado por um orçamento de US$ 139 milhões. Resultado: sucesso de público (US$ 821 milhões arrecadados, valor altíssimo para a época) e crítica.

Tobey Maguire in Spider-Man 2 (2004)
Tobey Maguire em Homem-Aranha 2.

Deste modo, a continuação estava garantida e veio em 2004: dando sequência aos fatos do filme anterior e adicionando o interessante Dr. Octopus à franquia, vivido com intensidade por Alfred Molina. Com um orçamento ainda maior (US$ 200 milhões), possibilitando cenas espetaculares (premiada merecidamente com o Oscar de efeitos visuais) e um roteiro melhor desenvolvido, Homem-Aranha 2 é considerado até hoje uma das melhores adaptações dos quadrinhos para o cinema.

Hank Amos as Venom
Venom em Homem-Aranha 3.

O filme alcançou US$ 738 milhões em bilheterias mundiais. Sucesso comercial, mas inferior ao primeiro. Fato que fez o produtor Avi Arad se intrometer demais no desenvolvimento do terceiro capítulo da série, lançado em 2007. Sam Raimi queria o Abutre como vilão. Arad insistiu em Venon, figura querida dos fãs nas HQs. Resultado: o roteiro de Homem-Aranha 3 precisava dar conta de três vilões (Venon, Homem-Areia e o Duende-Verde) e ainda lidar com novos personagens adicionados à saga, especialmente um novo interesse amoroso, Gwen Stacy (Bryce Dallas-Howard). O resultado foi um filme sem rumo, que rendeu um bom dinheiro à Sony mas desagradou fãs e crítica.

Enquanto isso, em 2008, o Marvel Studios dava início ao universo compartilhado e cinematográfico da editora a partir de Homem de Ferro.

Andrew Garfield

Emma Stone and Andrew Garfield in The Amazing Spider-Man (2012)
Andrew Garfield e Emma Stone em O Espetacular Homem-Aranha.

Apenas cinco anos depois de sua última aparição nos cinemas, Homem-Aranha ganhou novo filme.

Dois bons jovens atores da nova geração, Andrew Garfield (que chamou a atenção de público e crítica em A Rede Social, 2010), e Emma Stone (destaque em Amor a Toda Prova e Histórias Cruzadas e que venceria o Oscar de atriz por La La Land: Cantando Estações, de 2016) foram escolhidos para viver respectivamente Peter Parker e Gwen Stacy, a primeira importante namorada do personagem nos gibis.

Marc Webb, que ganhou repercussão mundial com o indie (500) Dias com Ela (2009) foi contratado para a direção de O Espetacular Homem-Aranha. O intuito da Sony era dar um ar de romance independente à história dos protagonistas dentro da trama de super-heroísmo, gastar menos com diretor e elenco e investir mais na produção, visando um lucro maior, e acertar os ponteiros com a crítica especializada, apostando em nomes relativamente novos, porém “aprovados” pela mídia.

Sally Field (duas vezes vencedora do Oscar) interpretou a Tia May e Rhys Ifans (o companheiro de casa de Hugh Grant em Um Lugar Chamado Notting Hill) fez o vilão Lagarto.

Apesar do roteiro irregular, o filme alcançou sucesso de público (US$ 757 milhões) e teve sua continuação garantida. O estúdio, inclusive, cogitou uma quadrilogia e spin-offs da saga, a exemplo de um filme do Sexteto Sinistro.

Jamie Foxx and Andrew Garfield in The Amazing Spider-Man 2 (2014)
Jamie Foxx e Andrew Garfield em O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro.

Em 2014, chegou aos cinemas O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro. Jamie Foxx encarnou o vilão. A história ainda lidava com o aparecimento de Harry Osbourn e o consequente surgimento do Duende-Verde, outro vilão, Rino (Paul Giamatti) e uma subtrama sobre os pais de Peter Parker.

Ainda que seja mais divertido em relação ao anterior, o longa não obteve o sucesso de bilheteria esperado pelo estúdio (US$ 708 milhões para um megaorçamento de US$ 255 milhões!) e dividiu a crítica.

A Sony chegou a anunciar Sexteto Sinistro para 2016 e O Espetacular Homem-Aranha 3 para 2018. No entanto, foi vítima do vazamento de emails – e neles, constavam trocas de mensagens com a Marvel, numa possível parceria entre os estúdios.

Até que, em fevereiro de 2015, foi anunciado aquilo que os fãs aguardavam: Homem-Aranha, enfim, faria parte do universo criado pelo Marvel Studios, em uma parceria entre as empresas. Mas seria vivido por outro ator. Assim, a franquia estrelada por Andrew Garfield entraria para o limbo.

Tom Holland

Tom Holland in Spider-Man: Homecoming (2017)
Tom Holland em Homem-Aranha: De Volta ao Lar.

O carismático Tom Holland, que tinha alguns poucos filmes no currículo e viveu Billy Elliot nos palcos viveu a primeira versão adolescente do personagem no cinema. Tia May também foi rejuvenescida, interpretada por Marisa Tomei. Deu certo. Sua primeira aparição em pequena participação em Capitão América: Guerra Civil (2016) empolgou os fãs. No ano seguinte veio Homem-Aranha: De Volta ao Ar, no qual enfrentou o Abutre vivido por Michael Keaton. Tony Stark (Robert Downey Jr.) virou espécie de conselheiro, a figura paterna. Não foi mostrada – outra vez – a origem do personagem. Rendeu US$ 880 milhões para um orçamento de US$ 150 milhões.

Voltou em Vingadores: Guerra Infinita (2018) e duas vezes em 2019: em Ultimato, maior bilheteria da história (sem levar em consideração a inflação) e em Homem-Aranha: Longe de Casa, primeira vez que o Amigão da Vizinhança ultrapassou a marca de US$ 1 bilhão em bilheterias mundiais.  

Venom

Tom Hardy in Venom (2018)

Em 2018 foi lançado um spin-off pela Sony, o filme sobre o vilão Venom, que ganhou status de anti-herói e foi interpretado pelo elogiado ator Tom Hardy (o Bane de Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge). No elenco ainda estavam outros intérpretes respeitados, Michelle Williams (o par romântico do protagonista) e Woody Harrelson, que deverá viver outro algoz do Homem-Aranha, o Carnificina, em futuros longas. Entretanto, Venom não tem ligação, por enquanto, com o universo do Marvel Studios. É irregular, soa como tramas dos anos 1990, e ainda assim obteve sucesso de público ao faturar US$ 856 milhões para um orçamento de US$ 213 milhões.

Aranhaverso

Nicolas Cage, John Mulaney, Jake Johnson, Hailee Steinfeld, Shameik Moore, and Kimiko Glenn in Spider-Man: Into the Spider-Verse (2018)

Linda, arrebatadora, divertida, emocionante. Não cabem adjetivos para Homem-Aranha no Aranhaverso, o primeiro longa em animação do Amigão da Vizinhança lançado em 2018. A empreitada tinha tudo para soar mero caça-níqueis. A contribuição do filme para o gênero animação será sentida nos próximos anos. Trabalharam com novas ferramentas, colando animação “chapada” (tradicional), tipo desenhada à mão, em animação feita por computador. O resultado é deslumbrante. Como se víssemos histórias em quadrinhos ganhando vida e saltando do papel. Não se trata de verniz apenas. A trama é envolvente. Talvez soe complexa para os pequeninos.

Miles Morales é estudante secundarista e se vê em meio a um conflito entre o Homem-Aranha e o Rei do Crime. Vê seu ídolo perecer e é envolvido numa aventura sobre universos paralelos: o vilão quer juntar todas as realidades para trazer sua amada Vanessa de volta à vida. Quem acompanhou as séries do Demolidor no Netflix sabe quem é a amada do bandidão robusto. Eis que outros “Aranhas” surgem e são reunidos: a Mulher-Aranha Gwen Stacy, um Peter Parker veterano e barrigudinho que servirá de mentor a Miles, o Homem-Aranha Noir, a garota Peni Parker, vinda do futuro, e até o Porco-Aranha Peter Porker. Todos concebidos com traços respeitando suas diferentes origens. O Homem-Aranha Noir, por exemplo, sempre em preto e branco, Peni com traço de anime e assim por diante. Poderia ser uma salada maluca tantos estilos de animação dividindo espaço na tela. No entanto tudo é fluído, bonito.

Shameik Moore in Spider-Man: Into the Spider-Verse (2018)

Tal como Lego Batman – O Filme foi para o Homem-Morcego, Homem-Aranha no Aranhaverso celebra décadas de seu herói homenageando diferentes fases nos quadrinhos, nas telinhas e telonas, refazendo cenas de filmes, entregando aos fãs diversas referências, easter eggs. Vale à pena esperar a cena pós-créditos para quem achar que um determinado Homem-Aranha foi esquecido.

Com elenco de dubladores muito legal, que inclui o premiadíssimo Mahershala Ali (Moonlight e Green Book) vivendo o Tio Aaron, Shameik Moore (The Get Down) como o protagonista e até Nicolas Cage como o Homem-Aranha Noir e p Steve Trevor de Mulher Maravilha, Chris Pine, vivendo o Peter Parker do início, a animação tem vilões de visuais um tanto exagerados, trilha sonora e montagem empolgantes e momentos que arrancarão lágrimas do espectador. 

Com justiça levou o Oscar de animação e todos os principais prêmios da categoria. Orçado em US$ 90 milhões, arrebatou US$ 375 milhões nas bilheterias. Merecia muito mais. É a melhor versão para o cinema do Cabeça de Teia ao lado de Homem-Aranha 2.

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