Além do cinema | THRILLER, de MICHAEL JACKSON, transformou a cultura pop com profusão de hits e videoclipes que são verdadeiros filmes

Por ANDRÉ AZENHA

Qual o grande astro pop da música atual? Você caro leitor, conseguiria dizer algum artista, ou banda, que no momento gera frenesi entre pais e filhos em todo o mundo? Não? Justin Bieber, Katty Perry, Anitta? Os jovens dividem-se em tantas tribos que dificilmente algum artista consegue agradar a todos. Os adultos então…

Já aconteceram alguns poucos casos de artistas que arrebataram corações e mentes ao redor do globo. Frank Sinatra, Elvis. A beatlemania… E depois disso, talvez apenas Michael Jackson tenha realizado o feito de aliar reconhecimento da crítica e números exorbitantes em vendagens, músicas nas paradas de sucesso e fazer a alegria de várias gerações ao mesmo tempo. Ok, surgiram Madonna, Nirvana, Backstreet Boys, etc, mas o sucesso deles não passou nem perto.

Michael Jackson and Ola Ray in Michael Jackson: Thriller (1983)

Era 1982, auge do vinil, e o disco se chamava Thriller. O disco de Michael sacudiu a indústria fonográfica durante dois anos, entre 82 e 84, como jamais havia acontecido. Alcançou recordes impressionantes, que duram até hoje: o álbum mais vendido da história (104 milhões de cópias), o que ficou mais tempo em primeiro lugar (132 semanas), o que teve mais singles de sucesso (sete faixas no top 10), o mais premiado (97 prêmios, incluindo oito Grammys), o disco internacional mais vendido no Brasil e o clipe mais bem-sucedido: 14 milhões de cópias do vídeo da faixa-título foram vendidas em VHS.

Mas Thriller merece ser celebrado não apenas por seus números. MJ e o produtor Quincy Jones passaram meses no estúdio burilando as canções, e deram à obra um acabamento inigualável, colocando rock no R&B. É só contar as participações especiais: Paul McCartney canta em The Girl Is Mine, o guitarrista Eddie Van Halen eternizou o solo de Beat It e até a banda Toto (que não é lá essas coisas, entretanto estava em alta com QJ na época) participa em Human Nature.

Michael Jackson in Michael Jackson: Thriller (1983)

Como resultado, a obra também quebrou barreiras raciais. Em março de 1983, a MTV veiculou o clipe de Billie Jean e o passo moonwalk virou febre em todo o mundo, dançado por adultos e crianças. Assim, o astro abriu espaço para artistas e música pretos, até então segregados da TV e da mídia pop.

Os videoclipes foram um frenesi à parte, revolucionários, substituíam as colagens de imagens tão comuns até então para investirem em enredos dignos de cinema como Billie Jean, Beat It e, principalmente, Thriller. Neste último caso, o clipe é um curta-metragem de 14 minutos gravado em película, orçado em US$ 600 mil, dirigido por John Landis (Um Lobisomem Americano em Londres). A música e a dança seriam reverenciados diversas vezes em filmes como em De Repente 30 (2004).

Depois, Michael ainda fez o excelente Bad, cuja canção título teria videoclipe dirigido por Martin Scorsese. Na capa do disco já dava para notar a mudança de fisionomia, o nariz mais fino e a pele mais clara. Em pouco tempo ele mudaria totalmente de cor e passaria a ser manchete mais por suas polêmicas do que pelos lançamentos musicais, ainda que eles sempre trouxessem o selo de qualidade do artista.

Thriller jamais perdeu seu lugar na história. Sua influência ecoa até hoje. Até o roqueiro Chris Cornell costumava entoar uma versão lenta de Billie Jean em seus shows.

Nos aniversário de 25 anos do disco, foi lançada uma edição especial com capa holográfica, e que inclui faixas-bônus como Someone In The Dark, Carousel, o demo de Billie Jean e os bastidores da locução de Vincent Price para a faixa-título, mais remixes (versões bem inferiores às faixas originais) de Fergie, Akon, Will.I.Am e Kanye West.

No documentário Michael Jackson’s This is it (2009), lançado após sua morte com cenas daquela que viria a ser a turnê de retorno do astro, é possível perceber a importância de Thriller em sua carreira: a síntese de um artista completo.

Não dá para resumir o legado de Michael e a saudade que ele deixou no público, na mídia, no mundo, em um álbum. Mas em dias que os cliques e o visual parecem valer mais que o talento, é preciso manter viva a obra do Rei do Pop.

Michael Jackson, Jack Bricker, Cynthia Garris, and Tim Lawrence in Michael Jackson: Thriller (1983)

ANDRÉ AZENHA é crítico de cinema, jornalista, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Mestre em Audiovisual pela Universidade Anhembi Morumbi. Bacharel em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Católica de Santos. Editor dos sites Histórias do Cinema e CineZen Cultural, criado em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest – Festival Internacional de Filmes de Santos (maior festival de cinema do litoral paulista), CulturalMente Santista – Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Autor do livro Histórias: Batman e Superman no Cinema. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante em bairros com situação de vulnerabilidade. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. Ministra cursos, oficinas a palestras sobre história do cinema, crítica de cinema e jornalismo cultural em locais como Sesc Santos, Sesc Belenzinho, Instituto HQ (São Paulo), ETEC Aristóteles Ferreira, Open House Idiomas, UniSantos, Unimonte, Unisanta, Liceu Santista, entre outros. Participou dos livros 100 filmes essenciais do cinema brasileiro e 100 documentários brasileiros, editados pela Abraccine – Associação Brasileira dos Críticos de Cinema. Organizou e produziu exposições sobre Sonia Braga, Julia Andrews, Batman, Superman, Star Wars, cinema infantil.

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