20 filmes sobre o poder das manifestações populares

Neste domingo, 7 de junho, estão programadas pelo Brasil manifestações em defesa da democracia. Há tensão: o receio que grupos de essência fascista e neonazista, defensores do atual presidente, possam se infiltrar para fazer provocações e gerar tumultos violentos. O caos seria a desculpa para o governo federal tomar atitudes opressoras, taxando manifestantes pacíficos de terroristas e visando impor a “lei e a ordem”. Golpe á vista…

A estratégia é velha, datada, antiga, mas pode voltar a acontecer. Uma semana antes torcedores organizados de vários times se reuniram, foram insultados por manifestantes pró ditadura, fascismo e governo federal, e a polícia desandou a atirar bombas justamente em quem havia sido provocado.

Nos Estados Unidos há dias acontecem manifestos contra o racismo após o assassinato de George Floyd, sufocado por um policial. Aqui no país também ocorrem protestos da mesma temática depois das mortes de João Pedro Mattos, 14 anos, vítima de vários tiros perpetrados por policiais no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, no Rio de janeiro, e do menino Miguel Otávio, cinco anos (!), largado num elevador por Sari Gaspar Corte Real, patroa de sua mãe (que precisou levar o cachorro da chefe para passear em plena pandemia). Sari é esposa de Sérgio Hacker Corte Real, prefeito de Tamandaré, cidade distante 100 km da capital de Pernambuco, Recife.

Seja no Brasil ou nos Estados Unidos, o povo não aguenta mais impunidade, injustiças, desmandos. Lá aconteceram conflitos. No Brasil também. Para este domingo todos precisam estar atentos.

Neste texto relembramos 20 filmes (mais um bônus) que retratam manifestações populares e o poder do povo. Existem muitas obras sobre protestos, injustiças. A lista abaixo é focada em histórias que mostram a população indo à rua. São produções estrangeiras, brasileiras, clássicas, contemporâneas, baseadas em fatos, oriundas das histórias em quadrinhos, ficções e documentários. Algumas mostram os bastidores das manifestações, as negociações com autoridades, as lutas. Se você lembrar de algum outro filme, deixe seu comentário.

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A Batalha de Seattle (Battle in Seattle, 2007, de Stuart Townsend)

André Benjamin and Jennifer Carpenter in Battle in Seattle (2007)

Durante cinco dias de 1999, dezenas de milhares de manifestantes tomaram as ruas de Seattle em protesto contra o avanço das políticas neoliberais. Foi um momento histórico, ocorrido durante uma reunião da Organização Mundial de Comercio (OMC). O que era pra ser uma manifestação pacífica, já que desde os anos 60 não se via protestos de jovens contra o capitalismo nos EUA, se transformou num campo de batalha entre manifestantes, a polícia local e a guarda nacional. O ator irlandês Stuart Townsend (A Rainha dos Condenados e A Liga Extraordinária) não escolheu um dos temas mais fáceis para sua estréia como diretor. A Batalha de Seattle, lançado direto em home vídeo no Brasil, conta a história desses dias em que a capital do rock grunge virou palco de dissonância política, dando voz a uma nova geração de jovens rebeldes.

Argo (Argo, 2012, de Ben Affleck)

Argo (2012)

A trama inicia em 4 de novembro de 1979, quando a embaixada norte-americana em Teerã é invadida por militantes islâmicos e estudantes iranianos, exigindo a extradição do ex-governante do país Mohammad Reza Pahlavi, em tratamento de saúde nos Estados Unidos, gerando a crise de reféns no Irã. Entretanto, seis americanos conseguiram sair da embaixada antes da invasão, escondendo-se na residência do embaixador do Canadá. A CIA estuda meios de resgatá-los e Tony Mendez (Affleck) engendra a ideia de resgate por meio de uma equipe de produção de um falso filme de ficção científica, chamado Argo. Ganhou três estatuetas no Oscar, incluindo Melhor Filme.

As Sufragistas (Suffragette, 2015, de Sarah Gavron)

Carey Mulligan in Suffragette (2015)

Dirigido pela britânica Sarah Gavron, se passa no início do século XX. Após décadas de manifestações pacíficas, as mulheres ainda não possuem o direito de voto no Reino Unido, trabalhavam em ambientes insalubres e ganhavam menos que os homens. Um grupo militante – majoritariamente formado por mulheres brancas – decide coordenar atos de insubordinação, quebrando vidraças e explodindo caixas de correio, para chamar a atenção dos políticos locais à causa. Maud Watts (Carey Mulligan), sem formação política, descobre o movimento e passa a cooperar com as novas feministas. Ela enfrenta grande pressão da polícia e dos familiares para voltar ao lar e se sujeitar à opressão masculina, mas decide que o combate pela igualdade de direitos merece alguns sacrifícios. O elenco conta com Meryl Streep e Helena Bonham-Carter. Vale ressaltar que o direito amplo ao voto para mulheres de todas as etnias só ocorreria décadas depois.

Azul é a Cor Mais Quente (La vie d’Adèle, 2013, de Abdellatif Kechiche)

Léa Seydoux and Adèle Exarchopoulos in La vie d'Adèle (2013)

A vida de Adèle (Adele Exarchopoulos) muda quando ela conhece Emma (Léa Seydoux), ​ jovem de cabelos azuis que lhe permitirá descobrir o desejo e se afirmar como mulher e como adulta. Na frente dos outros, Adèle cresce, procura a si mesma, se perde e, finalmente, se vê através do amor e da perda. Com 85 prêmios, sendo dois deles em Cannes (inclusive a Palma de Ouro), e mais de 100 indicações, o filme tem cenas de protestos nas ruas. Tempos após o lançamento do longa vazaram os abusos cometidos pelo diretor Abdellatif Kechiche contra as atrizes nas filmagens das cenas de sexo.

Clash (Eshtebak, 2016, de Mohamed Diab)

Eshtebak (2016)

Coproduzido por Egito, França e Alemanha. Situado logo após os eventos políticos de junho de 2013, é filmado inteiramente nos confins de uma van da polícia que contém membros da Irmandade Muçulmana e apoiadores pró-exército, bem como outras pessoas pertencentes a nenhuma dessas facções. Foi lançado no Festival de Cannes, na Mostra Um Certo Olhar e indicado pela organização Cinema For Peace (sediada em Berlim, que pretende aumentar a conscientização sobre a relevância social das obras cinematográficas) ao prêmio de Filme Mais Valioso do Ano.

Democracia em Vertigem (2019, de Petra Costa)

Cena do filme 'Democracia em vertigem' de Petra Costa.

O documentário político e as memórias pessoais colidem nessa exploração da verdade complexa por trás do desenrolar das duas presidências brasileiras. Parte das manifestações de 2013 chegando até à eleição de Jair Bolsonaro. Foi indicado ao Oscar de Melhor Documentário. Lançado pelo Netflix.

Domingo Sangrento (Bloody Sunday, 2002, de Paul Greengrass)

Bloody Sunday (2002)

Dramatização da marcha irlandesa de protesto pelos direitos civis e subsequente massacre pelas tropas britânicas em 30 de janeiro de 1972. Recebeu 11 prêmios, inclusive um no Festival Internacional do Rio de Janeiro.

Em Guerra (En guerre, 2018, de Stéphane Brizé)

Vincent Lindon in En guerre (2018)

Depois de prometer a 1100 funcionários que protegeriam seus empregos, os gerentes de uma fábrica decidem fechar de repente a unidade. Laurent (Vincent Lindon) assume a liderança em uma luta contra essa decisão. Um dos melhores filmes de 2018, Em Guerra mostra os bastidores das negociações trabalhistas, como empresários e governantes atuam em conjunto para desestabilizar o grupo de grevistas que ficam uns contra os outros. Uma das obras cinematográficas que melhor retratam, de maneira nua, crua, manifestações do povo. O final é um verdadeiro soco no estômago e nos dá um choque de realidade.

Gandhi (Gandhi, 1982, de Richard Attenborough)

Gandhi (1982)

A vida do advogado que se tornou o famoso líder das revoltas indianas contra o domínio britânico através de sua filosofia de protesto não-violento. Vencedor de Oito Oscars (incluindo Filme, Diretor e Ator, para Ben Kingsley).

Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman, 2018, de Spike Lee)

Laura Harrier in BlacKkKlansman (2018)

A história real de Ron Stallworth (John David Washington, filho do astro Denzel Washington), que se infiltrou na Klu Klux Klan durante os anos 70. Ele conversava por telefone com o diretor da organização racista, David Duke (o mesmo que identificou em Jair Bolsonaro alguém “dos seus”), vivido por Topher Grace. Quando convocado a ir nas reuniões do grupo, foi substituído pelo colega branco Flip Zimmerman (Adam Driver, o Kylo Ren de Star Wars). Na vida real, essa investigação evitou diversos atentados. A trama acompanha ainda a relação de Ron e a ativista do movimento negro Patrice (Laura Harrier). Mostra manifestações do movimento negro. Rendeu um tardio e merecido oscar (de roteiro adaptado) ao genial Spike Lee. Obteve mais de 40 prèmios e 200 indicações. Foi o melhor filme de 2018 e merecia mais no Oscar.

Junho: O Mês que Abalou o Brasil (2014, de João Wainer)

Junho - O Mês que Abalou o Brasil - Foto

O documentário aborda as manifestações que explodiram em junho de 2013 no Brasil, desde o Movimento Passe Livre, passando pelo caos do transporte público, a truculência policial e chegando até o jornalismo cidadão.

Malcolm X (Malcolm X, 1992, de Spike Lee)

Denzel Washington in Malcolm X (1992)

Épico biográfico do controverso e influente líder nacionalista negro (interpretado pelo sempre excelente Denzel Washington). Anos mais tarde o Netflix lançaria uma ótima série documental.

Milk: A Voz da Igualdade (Milk, 2008, de Gus Van Sant)

Milk (2008)

Baseado na história real do político de São Francisco Harvey Milk (Sean Penn), o primeiro gay assumido a ser eleito para um cargo público (equivalente a vereador) nos Estados Unidos, o que motivou um contra-ataque desmedido da homofobia vigente na época. Ele acabou morto aos 48 anos por um rival político que havia derrotado nas urnas. Seu engajamento e a tragédia recorrente fizeram dele um herói do movimento gay.

No (No, 2012, de Pablo Larrain)

Gael García Bernal in No (2012)

No Chile de 1988, o governo ditatorial convoca um plebiscito para perguntar se a população apoia os militares. Um publicitário (Gael Garcia Bernal), então, fica responsável pela Campanha do Não, com ideias ousadas para convencer o povo a acabar com o regime militar. Indicado ao Oscar de melhor filme em Língua Estrangeira, pelo Chile.

O Sal da Terra (Salt of the Earth , 1954, de Herbert J. Biberman)

Rosaura Revueltas in Salt of the Earth (1954)

Antes do documentário sobre a obra do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, esse filme recebeu o título O Sal da Terra no Brasil. Mineiros de origem mexicana entram em greve no Novo México, estado dos EUA, reivindicando os mesmos direitos e tratamento que os trabalhadores norte-americanos. Lideradas por Esperanza Quintero (Rosaura Revueltas), as esposas dos grevistas também se envolvem nos protestos. A iniciativa das manifestantes modifica, inclusive, os relacionamentos dos casais.

Os Miseráveis (Les Misérables, 2012, de Tooper)

Les Misérables (2012)

Baseado na obra de Vicor Hugo. Na França do século XIX, Jean Valjean (Hugh Jackman), que há décadas é perseguido pelo implacável policial Javert (Russell Crowe) após quebrar a condicional, concorda em cuidar da filha (Amanda Seyfried) de uma operária (Anne Hathaway). A decisão muda suas vidas para sempre. Ganhou três estatuetas no Oscar. Entre elas, atriz coadjuvante para Anne Hathaway. Mostra manifestações de jovens revolucionários contra o governo francês vigente, as barricadas e o conflito armado.

Os Sonhadores (The Dreamers, 2003, de Bernardo Bertolucci)

The Dreamers (2004)

A revisão do Maio de 68 por Bernardo Bertolucci. Jovem americano (Michael Pitt) que estuda em Paris em 1968 inicia uma amizade com um irmão (Louis Garrel) e uma irmã (Eva Green) franceses. Uma homenagem à história do cinema em várias citações – dos filmes mudos à Nouvelle Vague – e também homenagem aos heroicos tempos da revolução estudantil e da militância dos anos 1960.

Selma: A Luta Pela Igualdade (Selma, 2014, de Ava DuVernay)

Lorraine Toussaint, Colman Domingo, Carmen Ejogo, David Oyelowo, Wendell Pierce, and Stephan James in Selma (2014)

Mostra a luta de Martin Luther King Jr. (David Oyelowo) para garantir os direitos de voto dos afrodescendentes – campanha que culminou na marcha épica de Selma a Montgomery, Alabama e que estimulou a opinião pública americana e convenceu o presidente Johnson a implementar a Lei dos Direitos de Voto em 1965. Vencedor do Oscar de melhor canção (Glory), foi injustiçado pela Academia: merecia mais indicações e estatuetas da premiação. Pelo mundo, recebeu 58 troféus. Revelou a excelente diretora Ava DuVernay, que retornaria ao tema no documentário A 13ª Emenda e na série Olhos que Condenam, ambos do Netflix.

Stonewall – Onde o Orgulho Começou (Stonewall, 2015, de Roland Emmerich)

Jeremy Irvine and Jonny Beauchamp in Stonewall (2015)

O despertar político e o amadurecimento de um jovem durante os dias e semanas que antecederam a Rebelião de Stonewall – série de manifestações de membros da comunidade LGBT contra uma invasão da polícia de Nova York que aconteceu nas primeiras horas da manhã de 28 de junho de 1969, no bar Stonewall Inn, localizado no bairro de Greenwich Village, em Manhattan, em Nova York, nos Estados Unidos. Esses motins são amplamente considerados o mais importante evento que levou ao movimento moderno de libertação gay e à luta pelos direitos LGBT no país e inspirou manifestações similares ao redor do mundo.

V de Vingança (V For Vendetta, 2005, de James McTeigue)

V for Vendetta (2005)

Baseado na graphic novel de Alan Moore, é ambientado uma futura tirania britânica e acompanha um sombrio combatente da liberdade, conhecido apenas pelo apelido de “V”, que planeja derrubá-la com a ajuda de uma jovem (Natalie Portman). O universo retratado nas histórias em quadrinhos e no cinema nos mostram um mundo com toque de recolher, falta de liberdade, censura, violência do estado e um ditador que remete a Hitler. V inspira os cidadãos e a cena final é catártica, com toda a população nas ruas usando sua máscara.

Bônus

Maidan: Tonight Tomorrow, 2014, de Leeor Kaufman

Watch A Reporter at Large | Maidan: Tonight, Tomorrow | The New ...

Curta-metragem sobre as manifestações de Maidan, na Ucrânia, que levou ao fim do governo vigente, mas revela que os novos governantes contaram com apoio da extrema-direita do país. O documentário do Netflix indicado ao Oscar da categoria Winter on Fire: Ukraine’s Fight for Freedom, por exemplo, ignora esse fato e passa a impressão de que as manifestações foram feitas por pessoas de todas as camadas sociais do país de maneira orgânica e natural.

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