X-MEN: O FILME (X-Men, 2000) inaugurou nova era no cinema de heróis

Quando falamos sobre as melhores adaptações dos quadrinhos para o cinema, logo pensamos em Superman, clássico de 1978 estrelado por Christopher Reeve, geralmente eleito o melhor de super-heróis, além de ser o primeiro decente sobre, e Batman: O Cavaleiro das Trevas, que em 2008 não só mostrou que filme de super-herói podia ser levado a sério, como virou uma das maiores bilheterias da história, ultrapassando US$ 1 bilhão em arrecadação mundial.

Mas um outro longa-metragem também pode ser considerado um divisor de águas na trajetória dos filmes baseados em HQs: X-Men: O Filme. Lançado em julho de 2000 nos EUA, e um mês depois no Brasil, abriu as portas do novo milênio para uma enxurrada de produções protagonizadas por seres superpoderosos, que transformariam atores desconhecidos em estrelas do dia para a noite, e resgatariam antigos astros do ostracismo.

Período de transição

Famke Janssen in X-Men (2000)

Na virada da década de 90 para os anos 2000, o cenário cinematográfico não era dos mais positivos para as produções cinematográficas de super-heróis. A quadrilogia Batman (personagem da DC), que iniciou com dois sucessos de Tim Burton (lançados em 1989 e 1992), perdeu o foco e virou uma chanchada carnavalesca nas mãos de Joel Schumacher, encerrada melancolicamente no péssimo Batman & Robin (1997).

Os heróis da concorrente Marvel não tiveram melhor sorte. Justiceiro (1989), Capitão América (1990), Quarteto Fantástico (1994) e Nick Fury (1998, feito para a tevê), foram massacrados pela crítica e praticamente ignorados pelo público – o filme do quarteto não teve nem lançamento.

Quem, em sã consciência, naquele período, investiria dezenas de milhões de dólares num filme de super-herói?

A virada de jogo

Famke Janssen, Patrick Stewart, James Marsden, and Hugh Jackman in X-Men (2000)

Mas a virada de jogo começou com Blade (1998), que surgiu de forma praticamente despretensiosa, apresentou uma trama melhor elaborada que seus congêneres e deu a pista para os produtores que desejassem realizar um filme inspirado em HQs dar certo: seria preciso ser criterioso na produção e não fugir da mitologia dos personagens.

Mitologia mutante: retrato das minorias

Imagine então fazer um filme dos X-Men, que sempre protagonizaram, nos gibis, histórias de cunho social, que utilizavam os mutantes como retrato de tantas minorias prejudicadas e massacradas pela intolerância e o preconceito da sociedade ao longo da história humana – negros, árabes, judeus, homossexuais, etc. Para dar uma ideia, Professor Xavier é comparado a Martin Luther King, negro que pregava a aceitação pacífica de sua raça entre os brancos. E Magneto representa o militante negro Malcolm X, que tinha atitude agressiva em relação às diferenças raciais. Ambos desejam ser aceitos e compreendidos, entretanto utilizam meios conflitantes para atingir o objetivo. Ou seja, X-Men é um gibi complexo, sério, que gerou histórias em quadrinhos clássicas e premiadas, além de um desenho animado elogiado nos anos 90, mas que poderia não atrair o grande público que frequenta os cinemas em busca de diversão imediata.

Os primeiros passos rumo ao cinema

Ainda bem que houve quem insistiu em levar os mutantes às telonas. A Fox adquiriu os direitos dos personagens para o cinema em 1994, após James Cameron tentar desenvolver um filme dos X-Men em 1989. Alguns profissionais chegaram a trabalhar em roteiros que jamais viram a luz do sol e, em 1996, Bryan Singer, cineasta desconhecido das massas, e que possuía no currículo o premiado Os Suspeitos (1995), assumiu o projeto. Uma escolha que se mostraria acertada.

Seria preciso condensar décadas de gibis dos X-Men num roteiro que soubesse transportar para o cinema o teor das histórias mutantes, sabendo tratar-se de uma mídia completamente diferente dos quadrinhos; agradar os fãs das HQs, os mais fanáticos entre os meios de entretenimento; e ainda chamar a atenção do grande público e escolher um bom elenco.

Adaptação

Famke Janssen and Hugh Jackman in X-Men (2000)

Porém, era inviável reunir grandes estrelas da época, pois o orçamento estava limitado em US$ 75 milhões. Valor modesto, se comparado a outras produções. Esse valor fez, também, alguns personagens frequentes dos X-Men nos gibis, que necessitariam de maiores efeitos visuais (Fera, Colossus, entre outros), serem excluídos do roteiro.

Assim, optou-se por não contar a origem do grupo e elaborar uma trama que já mostrava os X-Men como equipe, contando com os principais mutantes: Ciclope, Jean Grey, Tempestade e Wolverine, comandados pelo professor Xavier, combatendo seu velho arquirrival Magneto.

O filme

X-Men: O Filme mescla várias sagas dos quadrinhos. Na trama, os humanos temem e não entendem os mutantes e seus poderes. O Professor Xavier e seus alunos buscam um entendimento pacífico entre as espécies. Magneto, com sua Irmandade, prefere confrontar os humanos e provar que os mutantes formam uma espécie evoluída. Para tanto, cria um equipamento (que só funcionará com os poderes de Vampira) para matar alguns humanos reunidos numa conferência em Nova York, que visa discutir um ato de registro de mutantes, idealizado pelo senador Robert Kelly. O intuito do atentado é gerar uma revolta da sociedade contra os mutantes, que teriam a deixa perfeita para começar um conflito.

Elenco

Famke Janssen, Halle Berry, and James Marsden in X-Men (2000)

O elenco não contava com nomes capazes de arrastar multidões naquele período. Para interpretar o Professor Charles Xavier foi contratado Patrick Stewart, conhecido por viver o Capitão Picard entre 1987 e 1994 na série televisiva Star Trek: A Nova Geração, mas que até então não fizera nada de extraordinário no cinema. O ator incorporou o personagem de tal maneira, que nos dias atuais é mais fácil lembrá-lo pela trilogia mutante do que pela série de ficção-científica.

Magneto ganhou como intérprete Sir Ian McKellen, ator inglês veterano do teatro, assumidamente homossexual, que acabou revelando-se outra jogada de mestre dos produtores. Na primeira metade da década, ele dividiria suas atuações na franquia mutante com outra trilogia, de maior sucesso ainda, O Senhor dos Anéis.

Os X-Men não contavam com rostos famosos. Halle Barry, até ali pródiga em papéis coadjuvantes, seria Tempestade (em 2002, a atriz venceria o Oscar por A Última Ceia e depois só faria bobagens). Apesar de ter vencido o Oscar, quando menina, de Atriz Coadjuvante por O Piano (1993), Anna Paquin, que viveria Vampira, não podia ser considerada uma estrela. Vindo da série Gossip, que tinha Kate Hudson e Joshua Jackson no elenco, o galã James Marsden seria Ciclope. Famke Janssen, que protagonizara a adaptação de uma HQ independente, o modesto Model By Day, encarnaria Jean Grey. E a bela Rebecca Romijn, ex-modelo e apresentadora da MTV, faria Mística.

Hugh Jackman in X-Men (2000)

Exceto Anna Paquin, prejudicada ante os fãs babões por não contar com o corpão da Vampira dos gibis e da TV, e James Marsden, que fez um Ciclope insosso, meio bundão, todos os atores corresponderam e agradaram. Nenhum deles, porém, foi catapultado ao estrelado como Hugh Jackman, ator australiano que iniciou a carreira no teatro, estrelou musicais e precisaria encarnar ninguém menos que Wolverine, mutante irônico, rebelde e violento. Assim como nos gibis, Jackman concebeu um Wolverine carismático. O ator viu sua carreira dar uma guinada, sendo requisitado para trabalhar com diretores do quilate de Woody Allen e Christopher Nolan e protagonizando filmes-solo do personagem.

Marcaram presença na trama, em participações secundárias ou em rápidas aparições, outros personagens conhecidos das histórias mutantes como Dentes-de-Sabre, Groxo, Kitty Pryde e Jubileu. As filmagens aconteceram entre 22 de Setembro de 1999 e 3 de Março de 2000, principalmente em Toronto, no Canadá.

As mudanças

A produção buscou tornar a saga mutante menos fantasiosa. Os uniformes coloridos deram lugar a trajes escuros (o que rendeu até uma piada de Wolverine durante o longa) – herança direta de Matrix (1999). E não havia tantos efeitos especiais. Tempestade, por exemplo, mal sai do chão – Halle Berry, considerada objeto de decoração no elenco por fãs e parte da crítica, reclamaria maior presença da heroína nos filmes seguintes da franquia.

Repercussão

Patrick Stewart in X-Men (2000)

Apesar de não ser um épico como o Superman de Richard Donner e/ou  O Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan, X-Men: O Filme, mesmo não sendo uma obra perfeita, marcou o início de uma época. A partir dele, os heróis passaram a ser tratados com respeito na indústria cinematográfica. Ninguém mais queria dar bola fora. Fossem produtores, diretores, roteiristas ou atores.

Direta ou indiretamente, foi o responsável pelo surgimento da trilogia Homem-Aranha, do reinício da franquia Batman, de Nolan, e pela criação de um estúdio de cinema da Marvel, que tinha vendido os direitos de alguns personagens seus (inclusive os X-Men) e viu estúdios ganharem fortunas. Com o Marvel Studios, a empresa ganhou o mundo.

Com os quase US$ 300 milhões arrecadados mundialmente, X-Men: O Filme deu origem à saga dos mutantes no cinema, com uma continuação ainda melhor, de 2002, altos e baixos, reboot, spin-offs e terminou em 2019, com Fênix Negra, fracasso de público e crítica.

Seu legado para a cultura pop é imenso.

X-Men: O Filme
X-Men
Direção: Bryan Singer.
Com Hugh Jackman, Patrick Stewart, Ian McKellen, Famke Janssen, James Marsden, Halle Berry, Anna Paquin, Tyler Mane, Ray Park, Rebecca Romijn.
104 min.

Ian McKellen in X-Men (2000)
Anna Paquin, Katrina Florece, and Sumela Kay in X-Men (2000)
Patrick Stewart in X-Men (2000)
Famke Janssen, Halle Berry, Patrick Stewart, and James Marsden in X-Men (2000)
Bruce Davison, Ian McKellen, and Rebecca Romijn in X-Men (2000)

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