Adam West, o Batman dos Batmen

No ano em que Batman voltava às telonas para Liga da Justiça, nos despedimos do maior homem-morcego já mostrado numa tela: Adam West faleceu em 8 de junho de 2017, uma sexta-feira, aos 88 anos, vítima da leucemia. Estava em Los Angeles, cidade natal – nasceu em 19 de setembro de 1928 e seu nome de batismo é William West Anderson.

Provavelmente não foi o melhor ator a interpretar o personagem – os demais foram Lewis Wilson e Robert Lowery, em seriados exibidos nas matinês cinematográficas respectivamente em 1943 e 1949 e, depois, nos longas, Michael Keaton (1989 e 1992), Kevin Conroy (1993, dublando), Val Kilmer (1995), George Clooney (1997), Christian Bale (2005, 2008 e 2012), Ben Affleck (a partir de 2016) e Robert Pattinson. Kevin Conroy (1993) e Will Arnett (2014 e 2017) emprestaram suas vozes a versões animadas do Cruzado de Capa exibidas nos cinemas. Ninguém, no entanto, emocionou, fez rir, encantou e foi reverenciado ou imitado como Adam por tanto tempo. Sua carreira logicamente não se restringiu ao show televisivo. Mas ele que o levou ao estrelato.

Os fãs não viam uma encarnação “de carne e osso” do Cavaleiro das Trevas há quase duas décadas. A televisão surgiu como alternativa confortável de entretenimento e os seriados pararam de ser produzidos para as telonas. Coube à 20th Century Fox pelas mãos do experiente produtor William Dozier (Besouro Verde) a tarefa de criar a série que marcaria toda uma geração de fãs com a primeira aparição live action, em cores, de Batman, Robin e companhia. Durou três temporadas, 120 episódios, e rendeu um longa-metragem lançado nos cinemas visando promover o seriado internacionalmente. Todo o material foi lançado em DVD no Brasil.

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É importante contextualizar o momento em que o filme e a série foram rodados: os anos sessenta, quando as cores saltavam aos olhos no movimento hippie e no rock psicodélico. Mesmo as histórias em quadrinhos publicadas pela DC nesse período traziam tramas absurdas, com os heróis indo ao espaço e dimensões paralelas, criadas pelos autores em virtude do livro A Sedução dos Inocentes, do psiquiatra Fredric Wertham: segundo o sujeito, os gibis eram culpados pela delinquência juvenil. Ele também sugeriu que a Dupla Dinâmica poderia ter algum affair. Houve quem comprasse a ideia. Foi criado um código que censurava diversos temas nas HQs.

Assim, é injusto dizer que o Batman 66 destoava da essência do personagem. O ambiente colorido, o humor, as mensagens educativas, as onomatopeias eram reflexo dos quadrinhos naqueles anos. Muitos jornalistas utilizariam o termo camp para se referir a essa fase. A verdade é que milhões de pessoas tiveram o primeiro contato com o vigilante nesta versão. E Adam West, então perto dos 40 anos, defendeu Bruce e Batman da melhor forma. Era meio desajeitado, tinha barriguinha saliente. E também carisma, classe, uma certa cara de pau condizente com aqueles tempos. Teve dificuldades para conseguir outros papéis após o cancelamento da série. Abraçaria, depois, o legado: dava ótimas entrevistas, participava de convenções, festivais. Sempre sorridente e orgulhoso.

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Os vilões eram interpretados por atores consagrados. Cesar Romero (1907-1994) deu vida a um Coringa ensandecido. Não era problema se o bigode coberto de maquiagem ficava perceptível. O ator não queria se desfazer daquilo que, segundo ele, tinha lhe proporcionado tantos trabalhos. Burgess Meredith (1907-1997), o Pinguim, ficaria famoso como o treinador de Rocky Balboa no cinema, Mickey. Frank Gorshin (1933-2005), com seu porte atlético e olhos de lince davam ao Charada o ar necessário para alguém enlouquecido. Mulher-Gato teve três atrizes diferentes: a incomparável Julie Newmar e Eartha Kitt na TV (artista negra, em caso precursor da diversidade no universo pop), e Lee Meriwether no filme. Todos carismáticos e, para muitos, as versões definitivas desses vilões.

O programa de tevê e o longa-metragem deram vida à primeira Batmania: brinquedos, materiais escolares, itens para uso doméstico. Itens são disputados por colecionadores mundo afora ainda hoje.

Em julho de 2014, ano dos 75 anos de Batman, Adam West, Burt Ward e Julie Newmar foram convidados para participar da San Diego Comic-Con, maior evento de cultura pop do mundo, e foram ovacionados pela plateia. Prova de que, mesmo quase cinquenta anos depois, aquele Batman ainda era lembrado com carinho e tinha relevância entre os fãs. Em 2016, West, Yard e Newmar dublaram seus antigos personagens na animação O Retorno da Dupla Dinâmica, exibida um dia no cinema e lançada em home vídeo. Voltou para a continuação Batman Vs. Duas Caras, do ano seguinte – o vilão é o único da galeria clássica a não ter aparecido no seriado televisivo. A DC passou a publicar histórias em quadrinhos passadas no universo do seriado. Os fãs amaram.

Adam West se foi. Seu Batman é imortal.

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