O que foi o EXPRESSIONISMO ALEMÃO

Definição e contexto histórico

O termo expressionismo foi utilizado para definir uma vanguarda europeia, vertente da arte moderna que se difundiu na Alemanha após a 1ª Guerra Mundial. Teve sua origem na poesia e na pintura. Naturalmente se estendeu para o teatro e a arquitetura até chegar ao cinema. Seu principal objetivo era permitir que o espectador experimentasse a emoção primitiva do artista de forma ressaltada e vigorosa (CARDINAL, 1988).

Entre os representantes deste movimento nas artes plásticas temos Vincent Van Gogh. A pintura A Noite Estrelada, de Van Gogh, é considerada uma das principais obras do artista e que deu início à abstração, traço essencial do movimento. Tal tela representava a vista que Vincent tinha do seu quarto no período em que esteve no hospício.

Outro representando era Edvard Munch. As suas telas eram densas e abordavam temas difíceis como a solidão, a melancolia, a ansiedade e o medo. Sua obra-prima e mundialmente conhecida O Grito é considerada a iniciadora do expressionismo.

Suas influências estão enraizadas no pré-romantismo e no simbolismo francês, também chamado de sentimentalismo por apresentar características que valorizavam o sentimento e a sensibilidade individuais face à moral social e às convenções. O pré-romantismo está ligado, historicamente, à emancipação da burguesia, que, graças à sua ascensão econômica e social, se liberta progressivamente dos valores culturais aristocráticos, estes últimos associados ao classicismo.

O Simbolismo Francês do final do século XIX estudava sobretudo as artes primitivas que estavam sendo desenvolvidos por artistas e historiadores. Principalmente os pintores expressionistas tinham interesse por este estilo já que seu dinamismo era considerado superior aos estilos artísticos acadêmicos (CÁNEPA, 2008).

A tecnologia moderna, a comunicação e o mercado cultural internacionalizado prevaleceram sobre a cultura tradicional erudita. E, assim como em toda a Europa, na Alemanha do Segundo Império (1871-1918) as ideias modernistas se impuseram aos cânones clássicos e possibilitaram a difusão de ideias irracionalistas do filósofo Friedrich Nietzsche, do inconsciente de Sigmund Freud e da mecânica quântica de Albert Einstein. E o Expressionismo se desenvolveu em diálogo com as vanguardas internacionais pela busca de uma nova linguagem expressiva.

Com a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) a Europa, até então principal produtora no eixo cinematográfico, abre espaço para as produções hollywoodianas que se estabelecem como polo produtor de cinema no âmbito mundial (LIRA, 2013).

A Alemanha ficou isolada politicamente e culturalmente, fato que a levou a uma identidade nacional reforçada, aproximando os expressionistas do estilo gótico medieval, e definindo aquelas que seriam as suas características mais marcantes, ou seja, a tendência à abstração.

No cinema, até 1911 a Alemanha produzia apenas 10% dos filmes exibidos em seus cinemas. Pouco se sabe sobre tais produções, pois a falta de material, que se perdeu na guerra, impossibilita uma maior investigação. A falta de informações também foi agravada pelo fato de as produções cinematográficas alemãs raramente serem exportadas. Com a guerra, sem a entrada de filmes estrangeiros no pais, a produção audiovisual interna teve que dar conta sozinha de sua demanda.

Neste momento emerge o Expressionismo como movimento teatral e cinematográfico. A dramaturgia expressionista, existente desde antes de 1914, encontraria seu público a partir de 1916 e 1917, quando grandes diretores de teatro começaram a encenar peças expressionistas. Temas com subjetividade, marginalidade, sexualidade e conflitos de gerações eram frequentes. O cenário adquiriu maior relevância, amplificando o emocional do personagem e a iluminação tornou-se recurso fundamental e de grande poder, possibilitando moldar os traços fisionômicos a partir de focos baixos ou laterais. A maquiagem complementava a encenação fazendo ao rosto do ator formas exageradas, caricatas e grotescas.

Com o fim da Guerra, a Alemanha, que saiu derrotada, se viu, forcada pelo Tratado de Versalhes, perdendo colônias e territórios na Europa, reduzindo suas forças armadas e pagando multas pesadíssimas que a levaram a uma crise econômica sem precedentes. Os sobreviventes que passaram pelos horrores da guerra precisaram lidar com a crise pós conflito e com uma carga emocional catastrófica (CÁNEPA, 2008). Foi no intervalo entre as duas guerras mundiais que o Expressionismo Alemão como corrente cinematográfica se fortaleceu e ganhou o mundo.

Em 1933, com a ascensão de Adolf Hitler ao poder na Alemanha, o Expressionismo teve seu fim e seus maiores representantes fugiram para os Estados Unidos. A produção artística nacional se tornara mero meio de publicidade do Reich (LIRA, 2013).

O Cinema Alemão, que até 1910 teria uma produção cinematográfica tímida, encontro na iniciativa do produtor Paul Davidson (da produtora Pagu), em 1912, o trampolim para sua expansão. Em parceria com o sindicato dos dramaturgos, criou o que ficou conhecido como filme de autor (Autorenfilm). A partir de então, grandes escritores passaram a adaptar suas obras para o cinema e a escrever roteiros, atraindo profissionais de todo o mundo (NAZÁRIO, 2002).

Outro fator determinante que fortaleceu a produção cinematográfica na Alemanha no início do século XX foi a guerra. O país excluído do circuito de distribuição internacional e alvo de fortes campanhas antigermânicas se viu obrigado a subir sozinha o mercado interno. Em uma ação conjunta do poder público e privado criou-se em dezembro de 1917 a UFA (Universum Film Aktiengesellschaft), companhia que passou a centralizar a maior parte da produção, distribuição e exibição de filmes na Alemanha.

Com o fim da guerra a UFA, que já havia se tornado uma empresa de capital privado, não mediu esforços para quebrar o boicote internacional. Inicialmente assegurou seu espaço nos países neutros e, quando as importações foram reabertas, iniciou as suas megaproduções.

O reconhecimento internacional veio com O Gabinete do Dr. Caligari (1920), lançado no exterior em 1921 e que inspirou uma cinematografia inovadora estética e tecnicamente, persistindo na expressividade dos cenários no tratamento mágico da luz e na morbidez dos temas – características que ganharam a qualificação genérica de expressionistas (CÁNEPA, 2008).

O Gabinete do Dr. Caligari. 


As características do Expressionismo Alemão

As características que definiam o que era expressionista eram tão inusitadas que nenhuma convenção estilística parecia dar conta de ideias tão inovadoras sobre o décor, a mise-en-scène e os avanços técnicos atribuídos a esse conjunto de filmes.

E os filmes expressionistas não eram passiveis de uma classificação por gênero, mas constituíam uma experiência cinematográfica autoral e sofisticada (ELSAESSER, 2013). De tal forma, delimitar a cinematografia expressionista se torna uma tarefa complexa, pois não se trata de uma definição baseada em padrões estéticos rigorosos ou narrativas recorrentes em um grande número de filmes. Mas pode-se esquematizar as influências que este filme teve sobre as outras produções expressionistas.

O filme expressionista busca, com seus diversos tipos de planos, ângulos e movimentos, oferecer ao olho do espectador uma visão insólita do espaço cênico, com angulações oblíquas e enquadramentos inusitados. Em suma, o Expressionismo trabalha fenômenos interiores através de representações exteriores. Essa dualidade reforça o caráter psicológico tanto dos personagens, como do espectador (LIRA, 2013).

Embora o expressionismo refira-se mais diretamente a aspectos visuais por sua origem nas artes plásticas, pode-se encontrar uma unidade temática tão significativa quanto a estilística.

Retratando temas como a morte, a angústia das grandes cidades e os conflitos geracionais, destaca-se, entre seus aspectos mais importantes, a inovação estética. Seus atores e diretores oriundos do teatro, passaram a utilizar técnicas de palco, como o jogo de luzes e holofotes. Em vez de movimentos de câmera, se destacavam os detalhes com a iluminação. A aparência fantástica das sombras nas lentes da câmera compunha os efeitos mais frequentes.

Nos quesitos iluminação, cenário, figurino e interpretação é atribuído um valor dramático, fortemente contrastante, no qual a oposição claro-escuro resume o embate Bem e Mal comum nos enredos expressionistas.

A composição que pode ser definida como junção única de diferentes aspectos ligados à mise-en-scène que resultava numa ênfase plástica e dramática na composição, numa espécie de deformação expressiva e reforçada por maquiagem e figurino estilizados.

O filme Genuine (1920), de Weine, traz um bom exemplo de cenário exagerado. O mise-en-scène da sacerdotisa do mal é feita de painéis pintados por César Klein.

Genuine. 

Outro exemplo pode ser o filme O Golem (1920), de Paul Wegener, que usou como cenário um gueto de Praga reconstruído em estúdio, dando ênfase a aspectos arquitetônicos como ruas estreitas, formas angulosas e grandes contrastes entre áreas iluminadas e escuras.

O Golem. 

Quanto às soluções arquitetônicas expressivas para o décor temos como exemplo o filme de Fritz Lang, A Morte Cansada, de 1921, que apresenta cenários que descrevem a situação emocional da garota, como quando ela precisa subir uma enorme escadaria para alcançar o local onde a Morte a espera ou caminhar ao lado de um muro imenso do qual não vemos o filme.

A Morte Cansada. 

O filme de Lang, Metropolis, de 1927, também é exemplo. Nessa fantasia futurista, a arquitetura criada por Otto Hunte foi fundamental para a construção dramática, produzindo um ambiente industrial ultramoderno. A mesma estilização da arquitetura também se refletiu na alteração da natureza, que se molda de acordo om as exigências dramáticas.

Metrópolis. 

Assim como a cenografia, a fotografia ganhou traços expressionistas. Ao enfatizar e salientar, muitas vezes com exagero, o relevo e os contornos de um objeto ou detalhes de um cenário, se tornou uma característica do filme alemão. O moldar as formas por meio de uma faixa luminosa para criar uma plástica artificial também é traço comum na fotografia expressionista.

Na obra de Murnau, A Última Gargalhada (1924), a fotografia elaborada por Karl Freund se transforma em um instrumento dramático fundamental, quando o protagonista tem verdadeiras visões do inferno em seu novo posto de trabalho. Outro exemplo é o filme Sombras (1923), de Arthur Robison que, com a dupla Grau/Wagner, criaram o efeito de um filme dentro do filme (CÁNEPA, 2008).

A Última Gargalhada.

A sombra apresenta-se como algo mais aterrador do que a própria criatura que a produz, simplesmente porque é uma sombra, com toda a valorização simbólica negativa de sua natureza anti-luz, mas também porque é maior e mais disforme do que o objeto que a projeta (LIRA, 2013).

Sombras. 

Podemos citar como exemplo do uso da sombra o filme Nosferatu. Nele o diretor Friedrich Wilhelm Murnau impõe traços da personalidade do protagonista, um vampiro, não apenas a partir do uso recorrente de escuridão em torno dele, mas principalmente pela forma como ele é revelado em sua sombra.

Nosferatu. 

Além das experiências para captar os estados da alma dos personagens com base em aspectos visuais, também houve a tentativa de reprodução do inconsciente em imagens. O filme Fantasma (1922), de Murnau, tornou-se célebre pelas cenas em que um café inteiro gira quando o protagonista (Alfred Abel) é dominado pela vertigem. Da mesma maneira, em Da aurora à meia-noite (1920), de Karl Heinz Martin, ruas inteiras parecem cair sobre o herói.

O espaço urbano expressionista também foi utilizado como função transmitir e intensificar toda a carga dramática que não podia ser transmitidas por palavras no cenário, mas representada nos objetos e cenografia. Nele expressa-se uma angústia atemporal. Nele caminham seres arrasados moralmente, deprimidos por obscuras problemáticas, seus lampiões iluminam apenas um pequeno espaço e o resto são becos sem saída (BARROS, 2011).

Como exemplo podemos citar a pequena vila medieval de Holstenwall, de O Gabinte do Dr Caligari. A figura geral sobre o espaço remete imediatamente para o movimento e aspecto das chamas quando algo está a arder. As formas dentadas e agudas que abundam na imagem, refletiam a tendência da arquitetônica expressionista para a distorção. Numa visão mais aproximada da vila, as ruas são irregulares e escuras, passagens estreitas delimitadas por casas, nas quais parece nunca penetrar a luz do dia.

Vila medieval de Holstenwall de O Gabinete do Dr. Galigari, de Robert Wiene, 1920.

Os espaços interiores seguem visualmente a mesma linha dos espaços exteriores, algo indispensável de forma a haver uma concordância espacial com cenários pesados intensificados por sombras bem delimitadas.

O Gabinete do Dr. Caligari. 

O conjunto de ruas tortuosas e escuras, linhas e planos tortuosos e inclinados, contrastes claro-escuro violentos, e a própria interação dos personagens no cenário, como é o caso de Cesare, que desliza pelas paredes, representam as características expressionistas que transfiguram o ambiente urbano e os carregam de características emocionais do personagem.

Cesare em O Gabinete do Dr. Caligari. 

Quando falamos sobre temática recorrente uma das principais características de muitos filmes alemães a presença desses personagens destituídos de bondade e isolados em egotrips de poder, a quem chamou de tiranos.

Podemos citar como exemplo o Dr. Mabuse do filme O Jogador (1922), dirigido por Fritz Lang, que traz como bandido a figura do homem-sombra que joga com o destino dos humanos sob disfarce (Eisner 1985, p. 80).

Ainda no âmbito das encarnações do mal, podemos destacar filmes que mantiveram características expressionistas.

O Tartufo (1925), de Murnau, aborda as perversidades praticadas pelo cínico Tartufo contra uma família burguesa.

Já O Vampiro de Dusseldorf (1930), retoma o tema do serial killer que assassina crianças incapazes de dominar os próprios instintos.

Por último, no filme de O Anjo Azul (1930), de Josef Von Sternberg, a prostituta Lola-Lola destrói a vida do apaixonado professor Hath submetendo-o às piores humilhações.

A capacidade dos personagens de assumir várias identidades também é uma característica expressionista. Um exemplo é o filme As Mãos de Orlac (1924), de Robert Wiene, no qual são transplantadas, no personagem, as mãos de um criminoso e ele acredita estar dominado por elas. A Casa Voltada Para a Lua (1921), de Karl Heinz Martin, também é um exemplo. No filme um modelador de figuras de cera é atingido pelos estigmas de suas criaturas.

O cinema alemão da época também criou uma vasta galeria de monstros – figuras fisicamente deformadas fisicamente e psicologicamente. Muitas vezes tais personagens representavam o horror às categorias sociais marginais (CÁNEPA, 2008).

Legado

A influência do expressionismo alemão está presente no Film Noir, justamente pela presença de cineastas alemães nos Estados Unidos. Entre as características desses filmes estão personagens errantes, fotografia em claro-escuro.

Tim Burton

O cineasta, um outsider, com um constante sentimento de não pertencimento e influências góticas, criou um estilo próprio e bastante autoral (WOODS, 2016).

Ao terminar o colegial, ganhou uma bolsa da Disney para estudar no Instituto das Artes da Califórnia. Em seguida foi contratado pelos Estúdios Walt Disney como aprendiz de animador. Produziria apenas três curtas-metragens: Vicente (1982), Maria e João (1983), Frankenweenie (1984), antes de ser despedido atribuindo as suas produções características sombrias demais.

Vincent (1982), Maria e João (1983) e Frankenweenie (1984).

Três anos depois, seu amor ao horror e o talento para a comédia levaram o diretor a dirigir a obra Os Fantasmas se Divertem (Beetlejuice, 1988), que eternizou o ator Michael Keaton como o fantasma zombeteiro que aparecia após ser chamado por três vezes. Apesar do baixo orçamento, o filme teve uma boa bilheteria e ganhou o prêmio de Melhor Maquiagem no Oscar em 1989. A obra acabou chamando a atenção de Hollywood e o diretor recebeu o convite irrecusável para dirigir Batman, em 1989.

Resultado de imagem para beetlejuice michael keaton
Os Fantasmas se Divertem. 

Entre altos e baixos a carreira de Tim Burton continuou, mas a constante em suas obras são as influências góticas e expressionistas.

O expressionismo alemão no Batman de Tim Burton

Como escrito anteriormente, o expressionismo buscava a distorção de imagens e de cenários, por meio da maquiagem e da fotografia para mostrar a forma como seus realizadores enxergavam o mundo. Tais técnicas buscavam manifestar as características ideológicas do movimento cinematográfico que negava o mundo burguês, o racionalismo moderno, o trabalho mecânico, combatia a razão com a fantasia.

O diretor Tim Burton demonstrou em várias ocasiões uma afinidade pelos trabalhos de artistas expressionistas. Sua influência é claramente visível em muitos dos filmes de Burton, incluindo seus dois empreendimentos de quadrinhos, Batman (1989) e Batman Returns (1992).

Em Batman, de 1989, (Figura 35) a cidade de Gotham City (Figura 36) funciona como um personagem relevante da trama, conduzindo personagens entre uma arquitetura urbana típica de um clássico como Metrópolis (1927) com arranha-céus e fortes diferenças sociais e superpopulação. A maioria das cenas são rodadas com fortes sombras ou em ambientes escuros.

Metrópolis (1927) e a Gotham City de Tim Burton.

O filme é sobre o herói combatendo o crime da grande cidade e tudo acontece durante a noite, pois é quando o mal (escuro em contraposição ao bom/claro) está à solta. As maquiagens dos vilões e do protagonista em Batman são carregadas, trazendo aspectos pessoais através de seu figurino. A construção do antagonista, Coringa, remete ao personagem do filme expressionista O Homem que Ri, de Paul Leni. Sua maquiagem é carregada e seu sorriso macabro determinam os principais aspectos do personagem. A ausência de uma causa pela qual este comete seus crimes elabora um personagem complexo, cheio de manias caricatas que serão utilizadas por Jack Nicholson no filme.

O sucesso do filme Batman possibilitou um mundo ampliado e rentável para o personagem, garantindo uma continuação, em 1992, Batman, o Retorno, cuja caracterização do vilão Pinguim remete diretamente ao filme expressionista O Gabinete do Dr. Caligari.

Tim Burton, em dois filmes sobre o Batman, também utiliza Gotham City como uma cidade opressora, capaz de desumanizar os cidadãos. Os vilões de Batman (1989), e Batman, o Retorno (1992) são vítimas de situações parecidas. O Coringa interpretado por Jack Nicholson no primeiro longa-metragem tem sua origem um pouco modificada. Ao invés de comediante, é Jack Napier, capanga do mafioso Carl Grissom (Jack Palance). É, também, amante da namorada do chefe. Este, com ciúmes, coloca o subordinado em apuros ao enviá-lo para um assalto e deixá-lo à mercê da polícia.

Em Batman, o Retorno o protagonista tem três algozes. Michelle Pfeiffer é Selina Kyle, secretária desajeitada e ambiciosa do empresário inescrupuloso e vaidoso Max Shreck (Christopher Walken). Ela é arremessada da janela de um alto prédio pelo chefe após esquecer de entregar a ele o discurso de um evento. Nesta situação a personagem é atingida pela intolerância e pelo machismo do empresário, que a considera alguém inferior e parte para a violência. Após a queda, Selina é “ressuscitada” como um gato e passa a ter sete vidas e decide vingar-se dos homens que a abandonaram e maltrataram, tornando-se a Mulher-Gato.

Enquanto isso, o Pinguim vivido por Danny De Vito é abandonado ainda bebê pelos pais ricos, por ser diferente. Cresce no esgoto de Gotham, criado por pinguins e quer vingança contra a elite da cidade. Acaba manipulado por Max Shreck (interpretado por Christopher Walken – o nome do personagem é uma homenagem ao ator do cinema-mudo Max Schreck, famoso pelo seu papel de Conde Orlock no filme Nosferatu) que o lança candidato à Prefeito de Gotham e depois o abandona.

Os espelhos são elementos visuais utilizados frequentemente por Tim Burton em seus filmes do Batman. A aversão do vilão por sua própria reflexão enfatiza sua incapacidade de enfrentar a natureza desigual e sua psique. Em vez de enfrentar seus problemas de frente, eles lhes dão as costas e permitem que seus lados sombrios reinem supremos.

Esse dispositivo visual que representa a dualidade interna é frequente no expressionismo. Foi usado em Nosferatu (1921), de Murnau, para sugerir o aspecto bilateral da psique dos protagonistas, e diversos outras obras posteriores desta corrente cinematográfica.

Em O Estudante de Praga (1926) de Henrik Galeen, o personagem Balduin (Conrad Veidt) vende seu reflexo ao mágico Scapinelli (Werner Krauss), levando a reflexão a sair do espelho e ganhar vida própria. O doppelganger continua a assombrar Balduin até que este destrua o espelho de onde se originou; libertando-se do seu lado sombrio, mas inadvertidamente se destruindo no processo.

Esse ato de destruir / liberar um aspecto secundário da personalidade de alguém através de um espelho também é visto em Fausto, de Murnau (1926), onde Mephisto (Emil Jannings) concede juventude a Fausto (Gösta Ekman) capturando seu semblante envelhecido em um pequeno espelho. No final do filme, Mephisto esmaga o espelho e Fausto é mais uma vez privado de sua juventude. O espelho se torna, então, objeto de transição que liga o velho Fausto ao jovem Fausto. Ao destruir o espelho, as duas identidades são permanentemente separadas.

Fausto (1926) e Batman (1989).

Nos Batman dirigidos por Burton o espelho tem função semelhante. A cena introdutória de Jack Napier mostra-o em frente a um espelho, admirando seu próprio reflexo. Mais tarde, ao ver seu rosto mutilado pela primeira vez, ele imediatamente destrói outro espelho. É interessante notar que, como em A Piada Mortal, de Alan Moore, o ponto em que o Coringa fica louco não é quando ele sai do tanque de produtos químicos, mas quando se vê no espelho.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

CÁNEPA, L. L. Expressionismo Alemão. In: MASCARELLO, F. (Org.). História do cinema Mundial. Campinas: Papirus 2008.

CARDINAL, R. O Expressionismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.

EISNER, L. H. A tela demoníaca: as influências de Max Reinhardt e do expressionismo. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

ELSAESSER, T. Weimar cinema and after: Germany’s historical imaginary. [S.l.]: Routledge, 2013.

GERMAN EXPRESSIONISM & BURTON’S BATMAN, Batman Online, 9 de junho de 2010. Disponível em: https://www.batman-online.com/features/2010/6/9/german-expressionism-and-tim-burtons-batman

JOLY, M. Introdução à análise da imagem. Campinas: Papirus, 1996.

KONVITZ, J. W. The urban millennium: The city-building process from the early Middle Ages to the present. Carbondale: Southern Illinois University Press 1985.

LENCIONE, S. Observações sobre o conceito de cidade e urbano. GEOUSP, Espaço e Tempo (Online), n. 24, p. 109-123, 2008. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/geousp/article/view/74098.

LIRA, B. Luz e Sombra: Significações imaginárias na fotografia do cinema expressionista alemão. João Pessoa: UFPB, 2013.

MURARI, L. de C.; PINHEIRO, F. P. F. O Expressionismo alemão e suas múltiplas derivações americanas. Revista de Pesquisa em Artes da Faculdade de Artes   do Paraná, v. 11, n. 7, p. 132-144, 2012. Disponível em: http://periodicos.unespar.edu.br/index.php/mosaico/article/view/72/pdf.

NAZÁRIO, L. O expressionismo e o cinema. In: NAZÁRIO, L. O Expressionismo. São Paulo, Perspectiva, 2002, p. 505-541.

VIEIRA, M. C. Imagem de cidade e representação urbana. Revista Intratextos, v. 2, p. 93-106, 2011. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/intratextos/article/view/1637.

WELDON, G. A Cruzada Mascarada: Batman e o Nascimento da Cultura Nerd. Rio de Janeiro: Pixel, 2018.

WHITFIELD, P. Cities of the world a history in maps. Berkeley: University of California Press, 2005.

WOODS, P. A. O Estranho Mundo de Tim Burton. São Paulo: LeYa, 2016.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s