A HARPA DA BIRMÂNIA (Biruma no tategoto, 1956): Amizade acima da guerra

Filmes sobre conflitos armados costumam separar os personagens entre heróis e vilões. Quando abordam a Segunda Guerra, obviamente o mal recaí sobre figuras do eixo: nazistas, fascistas e os japoneses. Poucos têm coragem de mostrar que, inclusive nesses grupos, existiam pessoas que acabaram ali por obrigação, defesa, sobrevivência, contra a vontade.

Clint Eastwood concebeu uma pérola sob esse ponto de vista: Cartas de Iwo Jima, de 2006, sobre os nipônicos responsáveis pela defesa da ilha formada por rocha vulcânica. Filmado quase em preto e branco, o longa indicado ao Oscar retratou com profundidade o drama do general Kuribayashi e seus subordinados.

Cinco décadas antes, A Harpa da Birmânia, rodado em preto e branco, mostrava a lealdade inquebrável existente entre companheiros de guerra, mesmo perante a derrota iminente. Não há culpados. Nem vilões. Somente seres humanos tentando sobreviver ao caos e voltar pra casa. O filme havia sido lançado no Brasil sob título Jamais Deixarei os Mortos e posteriormente ganhou edição pelo selo CultClassic, da Versátil.

Shôji Yasui in Biruma no tategoto (1956)

Somos apresentado à tropa do capitão Inouye (Rentarô Mikuni). Apaixonado por música, ele ensinou os comandados a cantar. As músicas geralmente são acompanhadas pela harpa de Mizushima (Shôji Yasui). A Guerra acabou. O Japão foi derrotado. E o grupo entrega as armas aos ingleses já quase na fronteira com a Tailândia. Mas Mizushima recebe uma tarefa ingrata: subir até a montanha onde estão outros soldados japoneses e convencer os conterrâneos a se entregar. Chegando lá, é incompreendido, acusado de traição e frente à continuação dos ataques, são todos massacrados pelos canhões britânicos. O harpista escapa, rouba as roupas de um monge e passa a vagar. Inouye e a tropa se recusam a aceitar a morte do amigo e decidem procurá-lo.

Dirigido com maestria pelo premiado Kon Ichikawa (1915-2008), o longa foi um dos responsáveis por propagar o cinema oriental no Ocidente em meados do século passado. Tem imagens deslumbrantes, cenas memoráveis, grandes atuações e sensibiliza o espectador. É trabalho humanista, pacifista, que nos faz enxergar poesia em meio à escuridão.

Os soldados são pessoas comuns, brincam, se ajudam, recordam a família, desejam sair do conflito o mais rápido possível. As canções emocionam, bem como um texto lido no final do filme. Merecidamente indicado ao Oscar de Filme em Língua Estrangeira, quando a categoria foi criada pela Academia, e premiado duas vezes em Veneza, A Harpa da Birmânia traz o melhor do cinema japonês.

A Harpa da Birmânia
Biruma no tategoto
Japão, 1956.
Direção: Kon Ichikawa.
Com Rentarô Mikuni, Shôji Yasui, Tatsuya Mihashi.
116 minutos.

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