TROPA ZERO (Troop Zero, 2019), na Amazon Prime Video, é uma delícia

Certos filmes são gratas surpresas. Chegam despretensiosos, em meio a uma avalanche de lançamentos. Vamos assisti-los sem grandes expectativas e nos apaixonamos por ele. É o caso de Tropa Zero (Troop Zero, 2019), exibido originalmente no Festival de Sundance, onde recebeu vários elogios, e disponível no Amazon Prime Video.

Uma obra delicada, sensível, engraçada, pungente, encantadora, esperta. Daquelas que trazem mensagens de superação, inclusão. Histórias assim podem cair no melodrama, na autoajuda. Mas o longa-metragem da dupla de diretoras Bert & Bertie supera qualquer clichê e ainda é um presente para cinéfilos e amantes da cultura pop em geral: são diversas as referências a filmes e canções clássicos e cultuados.

A primeira lembrança que vem à mente é do igualmente delicado, sensível, pungente e encantador Indomável Sonhadora (Beasts of the Southern Wild, de Benh Zeitlin). Comparação de alto nível. Afinal, o filme de 2012 recebeu mais de 90 prêmios e recebeu quatro indicações ao Oscar. Em comum, não estão apenas as crianças sonhadoras que vivem em bairros mais pobres e cenários bucólicos. Ambos foram escritos pela roteirista e dramaturga Lucy Alibar,

Estamos em 1977. A aventura acompanha a jornada da garota Christmas Flint (Mckenna Grace). Tem seu mundo particular, tipo uma Amélie Poulain mirim. Sofre bullying. Mas é otimista, persistente, resiliente. Vive num trailer com o pai, Ramsey Flint (Jim Gaffigan), advogado da vizinhança acostumado a perder a maioria dos casos. Ao descobrir que um grupo de escoteiras tem a chance de enviar mensagem ao espaço, a protagonista vê a oportunidade de ser reconectar com a mãe falecida.

Para participar da competição com outros grupos de meninas de diferentes cidadezinhas, precisa reunir uma equipe e encontrar uma adulta que possa liderar a turma. Essa líder será Miss Rayleen (ninguém menos que Viola Davis), a assistente de Ramsey.

A Tropa Zero, do título, será formada por Christmas e ainda: Hell-No Price (Milan Ray) e Smash (Johanna Colón), que aparentemente moram sozinhas (ou ao menos não vemos seus pais), Joseph (Charlie Shotwell), que prefere andar no meio das meninas, e Anne-Claire (Bella Higginbotham), cega de um olho e extremamente tímida, não fala em público.

Cinco crianças que sofrem preconceito, são isoladas, marginalizadas e diferentes maneiras. O pai de Joseph, por exemplo, insiste em treiná-lo para ser jogador de futebol americano. Código machista, imposição social. Aos poucos, no entanto, os cinco se completam, criam laços de amizades e encontram nas aparentes desvantagens a essência para superarem os obstáculos.

Principalmente Piper Keller (Ashley Brooke), a menina mais popular da região, mandachuva, mandona. Miss Massey (Allison Janney). Esta última coordena a equipe rival e tradicional de escoteiras mirins das redondezas e é o típico membro da comunidade que se acha superior, mais culto e civilizado em relação aos outros. Quem cresceu em comunidades sabe a sensação que é quando encontramos alguém que tem um pouquinho mais e nos trata com desprezo.

Lucy Alibar traz diálogos marcantes. Christmas, ao ser depreciada, humilhada, pergunta a Piper por que a trata tão mal, no que a algoz responde: por que me parece certo. Crianças podem ser extremamente cruéis. E geralmente seguem exemplos dos adultos, dos pais, professores.

Em outra conversa, Miss Massey diz à Christmas e sua turma que serão a Tropa Zero, numa tentativa de apequenar as crianças. A garota rebate dizendo que Zero é o símbolo do infinito.

Aliás, os diálogos ganham contundência pela qualidade do elenco, em especial a excepcional Mckenna Grace (de Annabelle 3: De Volta Para Casa), expressiva, envolvente, capaz de nos fazer sorrir e escorrer as lágrimas. Todos os atores mirins são ótimos e vamos combinar: um filme que tem duas vencedoras do Oscar como Viola Davis e Allison Janney dificilmente seria ruim. As duas, para variar, estão excelentes, carismáticas.

Quanto às referências que fazem a alegria de todo cinéfilo e amante da cultura pop em geral, possivelmente algum spoiler daqui em diante.

Há Cães de Aluguel (Reservoir Dogs), de Quentin Tarantino, quando a Tropa Zero se reúne, sai andando pelas ruas ao som de Little Green Bag, de George Baker, canção que embala os gângsteres no filme de 1992.

Há A Felicidade Não Se Compra (It’s a Wonderful Life, de Frank Capra), quando os moradores decidem socorre Ramsey a pagar a inscrição da Tropa Zero na competição de escoteiras. Ele que havia ajudado a todos da cidade tal qual George Bailey (James Stewart) ajudou muitos no clássico de 1946 e foi socorrido no momento de desespero.

Há David Bowie (na caracterização de Joseph) na apresentação da Tropa Zero e sua música Starman ao fim da exibição.

Sem contar o clima, o jeitão que remete filmes de amigos como Conta Comigo (Stand By Me, 1986, de Rob Reiner), Os Goonies (The Goonies, 1985, de Richard Donner), Turma da Mônica Laços (2019, de Daniel Rezende), de escoteiros ao estilo Bandeirantes de Beverly Hills (Troop Beverly Hills, 1989, de Jeff Kanew), e de competições com apresentações ao final como Mudança de Hábito 2: Mais Confusões no Convento (Sister Act 2: Back in the Habit , 1993, de Bill Duke) e Escola de Rock (School Of Rock, 2003, de Richard Linklater).

Belo tratado social, sobre inclusão, amizade, família (não necessariamente a família tradicional), redescoberta, superação, empatia e amor.

Tropa Zero
Troop Zero.
Estados Unidos. 2019.
Direção: Bert & Bertie.
Com Mckenna Grace, Viola Davis, Jim Gaffigan, Allison Janney, Charlie Shotwell, Milan Ray, Johanna Colón, Bella Higginbotham, Mike Epps.
94 minutos.

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