Os caminhos do fascismo em filmes e séries

A vida imita a arte. A arte imita a vida. Nem sempre nessa ordem. Em A Primeira Noite de Crime, lançado semana passada no Brasil, descobrimos como começou o Expurgo visto nos três filmes da franquia: Uma Noite de Crime (2013), Uma Noite de Crime 2: Anarquia (2014) e 12 Horas Para Sobreviver: O Ano da Eleição (2016).

A insatisfação da população nos EUA com Democratas e Republicanos chegou ao limite. Economia ruim, violência no ápice. Surge uma terceira via, de discurso populista, nacionalista. Que chega ao poder. Lembrou de alguém?

Nessa realidade concebida pelo cineasta James DeMonaco, um dos projetos dos novos “Pais Fundadores” da América: durante uma noite do ano, por 12 horas, todos os crimes serão permitidos. O objetivo é fazer o cidadão extravasar, deixar vir à tona toda a sua revolta, indignação. A trama de A Primeira Noite de Crime se passa antes dos três longas citados.

Esse começo ocorre apenas em Staten Island. Atinge basicamente negros, latinos e imigrantes de baixa renda. Nas primeiras horas, não há violência. O governo então, prevendo o fracasso da iniciativa e as críticas da população e da imprensa, decide “estimular” o “experimento” e envia grupos paramilitares. O caos explode. E nos demais filmes vemos como o Expurgo se expande para o país inteiro. Os ricos conseguem defender suas casas durante as tais 12 horas. Os pobres não. Pais aceitam serem torturados até a morte por US$ 100 mil. Para os filhos terem o que comer.

Publicamente, o discurso é de que a violência decaiu no restante do ano. É o fascismo cruel, nefasto, hipócrita.


Na excepcional série The Handmaid’s Tale (O Conto de Aia), baseada num livro de 1985 que já teve uma adaptação para os cinemas em 1990, acompanhamos o futuro distópico onde a taxa de natalidade despencou. Religiosos ultrarradicais com o discurso pela “família” e os “bons costumes” dão um golpe de estado e mudam, inclusive, o nome dos EUA. Mulheres férteis são escravizadas, estupradas. Aquelas casadas com os governantes precisam seguir as novas leis. Algumas se arrependem e sofrem as consequências. Aliás, o sexo é considerado pecado e é permitido somente para a procriação. Os homens brancos heterossexuais pais de família pregam a ordem. Mas, por fora, mantém um prostíbulo. Lá podem se entregar ao prazer sem culpa. A hipocrisia mais uma vez vigente. O discurso é um. A prática é outra. Só que não há prostitutas. As mulheres do local estão ali contra a vontade. Para sobreviverem.

A Primeira Noite de Crime e The Handmaid’s Tale são ficções não tão distantes da realidade. A opressão a mulheres, negros e gays é declarada e extrema em vários países. Em nações como o Brasil, durante muitos anos manteve-se uma cortina. Mas agora intolerantes de plantão perderam a vergonha. Destilam ódio e ignorância por que ganharam porta-vozes públicos. Regimes ditatoriais existiram e seguem existindo. O que talvez as pessoas não percebam é que o que está ruim pode piorar e a água podre pode respingar em qualquer nação. Regimes opressores não podem ser esquecidos. Em pleno 2018 corremos o risco de viver A Primeira Noite de CrimeThe Handmaid’s Tale, ou ainda V de Vingança, história em quadrinhos adaptada para o cinema em 2005, Ele Está de Volta, disponível no Netflix e baseado no best-seller homônimo de Timur Vermes mostrando o retorno de Hitler no mundo contemporâneo e como ele ganha novos adeptos rapidamente, ou O Homem do Castelo Alto, no Amazon Prime, seriado baseado no romance de 1962 e que retrata o destino do planeta após a vitória do Eixo na Segunda Guerra.

Filmes e séries avisaram. Depois não adianta chorar o leite derramado.

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